Cara, eu fico muito puta, mas muito puta com essa política hipster cirandeira! Vontade de mandar pro gulag, sinceramente! rsrsrs
Enfim, vivemos tempos sombrios, blablabla, de perda de direitos, blablabla, avanços conservadores... daí que, ao meu ver, a pauta urgente é a PEC 181 que pode proibir o direito de aborto até mesmo para casos de estupro ou risco a vida da mulher.
O que queremos? Queremos a legalização, o direito de abortar legalmente e ter assistência digna, passível até de reversão dessa ideia, se pans - como acontece no Uruguai, por exemplo.
Daí que vejo que, de um lado a gente tem o sensacionalismo barato que alcança diversas camadas populares mostrando de um jeito bem torto no que incide a descriminalização: crime, pecado, assassinato, homicídio, liberar o aborto como método anticoncepcional, vagabundagem permitida, fim da família...
E do outro lado, gente que tenta tratar direitos na esfera de direitos mesmo, sem religiosidade, sem crime (já que a ciência mostra que não feto não é nem gente e que, dependendo do período de gravidez, nem feto é...), gente que tenta provar que ninguém passaria por uma intervenção cirúrgica como método anticoncepcional e que muitos e muitos casos não tem nem a ver com promiscuidade ou extinção da raça humana.
O sensacionalismo 'informa' e sensibiliza as pessoas. Penso que, usar o sensacionalismo para trocentos casos reais, passíveis de aborto como: mulheres que não tem acesso a anticoncepcionais facilmente, mulheres que não tem acesso fácil a informação, mulheres que não podem tomar pílula, mulheres sem renda e abandonadas pelo companheiro, homens que não aceitam usar camisinha, mulheres com risco de morte em gravidezes desejadas ou indesejadas, meninas grávidas - todas essas histórias poderiam sensibilizar e mover mais pessoas pela descriminalização do aborto.
Mas a política cirandeira faz o que? Joga o caso de uma guria, cursando superior, com 2 filhos, sem risco para saúde, com acesso a informação, com acesso a anticoncepcional, com emprego (mesmo q temporário é emprego e, cursando superior, já a coloca a frente de um monte de mulheres), uma mulher que o pai também concorda com a ideia do aborto - ou seja, o cara não tem nenhuma religiosidade que o impeça de usar camisinha, o cara não tem nenhum impedimento para uma vasectomia, o cara tem consciência sobre o aborto e está presente... pohan!
Sabe aquela coisa do Titanic? Mulheres e crianças, primeiro?
Que eu não saco o tamanho do problema da guria? Claro que saco sim! Que eu defenderia o direito dela abortar? Defenderia, claro! Mas pelo amor de Deus!
A gente tá numa fase de ódio, de informação acelerada, de conservadorismo, de perda de direitos, de botar um monte de mulher pra parir filho de estupro, de perder um monte de mulher em sala de parto porque o bebê tem direito a vida e ela não! A gente tem um monte de mulher em situação, condição muito mas muuuuuito mais grave que a desta moça, que poderiam sensibilizar, simbolizar essa luta com muito mais assertividade!
A gente tem que pensar na informação que a gente tá gerando - distorcida, acelerada, com teor de sensacionalismo que atinge todas as camadas sociais pró ou contra uma luta!
O que isso pode parecer pro pessoal que já tem o ódio no couro e o selo pró-vida na testa?
Uma vagabunda, que já pariu 2, ganha pensão do marido, trabalha, estuda, que podia ter fechado as pernas, que podia ter tomado pílula do dia seguinte, que mora em metrópole então tem acesso a camisinha, tem acesso a outros métodos anticoncepcionais, que foi só se preocupar agora com o que fez e não quer assumir sua responsabilidade! Uma mulher que quer usar o aborto como método anticoncepcional! - É isso que eu penso? Claro que não! Óbvio que não! Mas eu sei que é nisso que podem e vão e já transformaram!
Eu entendo a urgência dela, do que pode ser o tempo limite para um aborto com menor risco.
Mas eu entendo que a urgência dela agora é vista por outros como uma urgência de não assumir a responsabilidade do que fez lá atrás. Pra mim é punir uma mulher e uma criança com uma gravidez? É! Claro que é! Perde a criança, perde a mãe com isso.
Mas infelizmente a causa da descriminalização do aborto não poderia passar este caso na frente dos outros (gravíssimos e de mais fácil compreensão) por meio de um julgamento específico, entende?
A juíza teria que tomar muito cuidado porque, votando a favor, abrindo este precedente, ela chama a briga dos pró-vida diretamente pra si. Antes de ser juíza, ela é gente. E sendo gente, ao lidar com esse povo intolerante, a gente já sabe no que anda dando né? Mirian Leitão, Judith Butler, Dilma... hostilização é pouco! Mexer com esse povo louco conservador abrindo precedente pra caso que sequer chegou a ser visto com bons olhos por uma parte desse povo é puxar a briga e assumir o risco.
Colocar carreira, credibilidade e sua vida em troca de um precedente que nem é dos mais desesperadores (infelizmente a gente vive com muita desigualdade. Infelizmente a gente tem casos gravíssimos para além deste. E infelizmente acho que a gente tem que pensar nos casos gravíssimos que estamos prestes a perder o direito) - vc o faria??
E só deixando claro que não fico puta com a guria. Não recrimino a atitude dela. Acho que ela foi é muito forte por suportar tudo isso e infelizmente se colocar em evidência a ponto de correr muito mais o risco de ser presa por fazer um aborto clandestino do que outras gurias agora. Consigo me imaginar numa situação parecida e imaginar o quão desesperador pode ser isso.
Mas isso torna a luta pela legalização muito caricata pra esse pessoal que vive de ódio - e que está ganhando espaço. Se eles só vivessem de ódio, estava ok. O problema é que eles estão ganhando espaço e a luta só vai ter equilíbrio, quando a gente conseguir conscientizar uma galera. Essa galera movida pelo sensacionalismo e pela informação acelerada - a gente precisa aprender a tocar essa gente e não servir de esculacho pra colocar essa gente contra a luta. A ciranda alimenta o lado do ódio quando coloca casos assim em evidência. Casos que caem no esculacho mesmo.
Um dia eu espero que a gente consiga descriminalizar essa parada e dar oportunidades decentes pra todas as mulheres. Mas enquanto a desigualdade for monstra, a gente precisa colocar casos a frente de casos. A gente precisa ver a urgência de violências sexuais sobre decisões não tomadas em tempo.