Lembro que na adolescência, a Oi lançou uma promoção absurda de 31 Anos de ligações grátis de Oi para Oi. Eu e minhas amigas tínhamos celulares da Oi e como toda adolescente da cidade que tinha Oi, começamos a fazer e receber ligações de números aleatórios, fazer contatos, amizades... Foi uma experiência muito divertida. Mas vejo que existe uma certa resistência para que as coisas se firmem. Desde estes relacionamentos de tele-amizade, aos contatinhos vindos da Oi, os do Orkut, Facebook, Tinder, Happn.. eles vem e vão.
Mas há relacionamentos que ficam. E é de um desses que vamos falar aqui. =)
Tempos de eleições. Pessoas absurdamente raivosas nas redes sociais. O início da intolerância, da polarização, da falta de diálogo nas redes de 'relacionamento'.
Ela, uma garota ainda. Viva, bonita, apaixonada por maquiagens e cheia de selfies, caras e bocas que iam do divertida ao sexy. Romântica, ingênua, perdida, sedenta por cultura e informação! Interessada por política e um tanto quanto inexperiente nesse meio - tanto de política quanto de Facebook - se assusta com o que vê. Com a quantidade de raivas espalhadas e agressões gratuitas.
Ele, já experiente, lindo daquele jeito largado, sorriso encantador, músico, estudioso e curioso por questões sociais - bom, dele não sabemos quando foi o início dos interesses políticos e nem como ele estava sobre as redes sociais mas é certo que o ódio que se espalhava também não era assim, algo comum a ele.
Ela em SP e ele no Rio.
Ela pobre, desempregada, sem grana pra pensar em conhecer o Rio um dia.
Ele, todo envolvido em estudos lá, trabalhando com música... também não estava assim disponível para SP.
E foi assim que se conheceram. Dessas coisas de redes sociais em que um aceitou a amizade do outro e já nem se sabe quem pediu amizade de quem! E começaram a interagir sobre politicas e músicas. Nossa! Quanta sintonia! Ela ficava deslumbrada!
Ela adorava falar com ele sobre essas coisas que ele sabia tanto e ela, quando encontra fontes de sabedoria,conhecimento, diálogos emancipadores... iluminação! - Ela se entrega perdidamente a isso.
E foi assim por muito tempo. Anos.
Ele de longe acompanhando suas vitórias e derrotas, dando apoio, levantando a auto-estima da garota.
Ela sempre de amorzinhos e chamegos pra ele. Muito gentil, muito interessada.
Havia claro interesse das duas partes, em se conhecer e até arriscar algo além. Mas isso ainda era oculto para ela. Apesar de latente. Não dá pra explicar. Só digo que foi um momento em que ela se perdeu completamente de si. Mas essa face oculta guardava sua essência e, certamente, em sua essência ela sabia que havia encontrado sua alma-gêmea.
"É força antiga do espírito
Virando convivência
De amizade apaixonada
Sonho, sexo, paixão
Vontades gêmeas de ficar
E não pensar em nada"E havia um detalhe! Ela namorava! Ela namorava e declarava esse Amor todo em suas redes e não sobrava espaço para pensar em mais nada - ela não sacava que toda aquela admiração e sintonia faziam mais sentido do que tudo ali - e ele continuava na dele, sem nunca deixar escapar esse sentimento. Ou deixou e ela não viu? Bem, se ele deixou, ela realmente não viu.
E ela sofria miseravelmente neste relacionamento! Sofria, não via, quase morria e... em meio a músicas e política, ele meio que a socorria.
Esse sentimento oculto, certa vez ousou aparecer. Ela ainda não entendia o que era mas sim! A possibilidade dele estar na cidade para se apresentar num dos lugares que ela mais gostava de frequentar a tomou de tal forma que, da selvageria de Serena Van Der Woodsen ela se transformou em Elizabeth Bennet ao saber que Mr. Dary estaria na cidade. Não sabia explicar, só sentir. Era algo tão bom e como ela queria este show! Como ela queria estar lá!
Seu namorado gostava da música dele também. Quis ir ao show.
No dia, fez de absolutamente tudo para atrasar e não ir. Ela desesperada, não negava o desejo, quis por que quis e atrasadíssimos, na estação de trem que anunciava trens em velocidade reduzida, ela chorou.
Tola, desconhecendo o que sentia, achava que chorava por perder um show que queria muito ver! Mas até seu namorado já havia notado que não era apenas um show que ela queria muito ver! E por isso tanto fez atrasar.
Chegando no teatro, um atraso de quase meia-hora a fez correr e, ao entrar na sala, como de praxe neste lugar, os atrasados, para não prejudicarem o restante da plateia, deveriam se sentar onde houvessem lugares próximo dos corredores e, para sorte dela e azar do namorado, aconselharam descer por todo o corredor lateral e sentar na primeira fileira que era uma das poucas que estava vazia - eram lugares marcados.
Ela encantada não conseguia olhar para mais nada! Somente ele, ele e... tá! uma cantora que ela adora, adora, adora também!
O show acabou e, ela com raiva do namorado e tímida, não quis ir abraçar o 'amigo virtual'.
Em meio a essa bagunça toda na vida dela. Geminiana nata! Muitos amores e amores nenhuns. Curiosidade. Busca incessante por conhecimento. Paixão intelectual. Mundo das ideias. Tudo transbordando, em ebulição ao mesmo tempo. No olho do furacão!
Tempos depois, acabou esse relacionamento louco, destruída, arrasada e foi viver. Se aventurou com outros amores, outras drogas e outros caras nem tão de amores assim. Mas uma boa foda não precisa ser negada se não há nenhum impedimento, certo?
Voltou a se conhecer. Recolher seus retalhos, reviver seus gostos, reencontrar seus desejos e, em meio a essa bagunça toda da vida, lá estava! O sentimento puro por ele.
Quando todas as tormentas acalmaram, ela nem podia acreditar que aqueeeele sentimento de amizade querida que ela achava ser era na verdade outro.
Ficaram muito tempo sem se ver. Sem se falar. Mas ela sabia o que queria. E num impulso incontrolável ela foi ao Rio.
Estava decidida a sair do que ainda assombrava sua vida e pensar na vida. Foi um exílio. Propositalmente escolhido a dedo - Rio de Janeiro, bairro de Santa Teresa.
E se encontrasse com ele por acaso? Seria só o acaso mesmo, claro! rsrsrs
E aproveitou tudo que havia de bom no Rio. E se encantou com Santa Teresa. Mas não viu o rapaz por lá.
Apesar de postar claramente que estava no Rio. Ele não demonstrou nenhum interesse por isso. E será que viu? Isso ela não sabia dizer. Voltou a São Paulo tranquila no coração. E isso é algo extremamente raro! Essa garota estar tranquila no coração.
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